Opinião: Como conversar com seu filho sobre o tema ‘morte’

 

O Dia de Finados pode ser uma boa oportunidade para falar do assunto.
Crianças têm condições intelectuais e emocionais de entender as perdas.

A criança deve ser informada sobre a morte, para poder superar as perdas (Foto: Arte/G1)

O próximo domingo (2) é o dia instituído pela igreja católica para que sua comunidade reze pelos seus mortos. Desde o século II essa prática existe entre os cristãos. Mas a data só foi estabelecida no século XIII.

Há quem possa achar estranho falarmos deste assunto em nossa coluna, afinal, o que tem a ver a morte com um espaço reservado à educação e criação de filhos? Se considerarmos que a morte faz parte da vida e o quanto a maioria de nós tem dificuldades para lidar com ela, o tema já se torna pertinente. Ainda mais quando o assunto envolve crianças.

E o que faz da morte um assunto tão complicado? Nossa incompreensão ou falta de coerência entre a fala e a vivência de nossa fé. Não sabemos o que acontece depois, se existe algo ou não, ou não cremos realmente na bíblia. Esse desconhecimento ou falta de fé real causa-nos temor. Por ser algo irreversível, preferimos fazer de conta que não existe. Ninguém precisa passar a vida falando e pensando na morte. De vez em quando, ela aparece e alguém que amamos se vai, ficando uma dor que demora para passar. A complexidade aumenta quando pensamos que vamos morrer, pois não conseguimos imaginar ou aceitar nossa própria finitude física.

Perder pessoas não é um fato reservado só para os adultos. As crianças também as perdem. Sabendo da dor desses eventos, queremos poupá-las do sofrimento. Para isso, evitamos falar com elas sobre o assunto, mesmo que alguém que amem (até mesmo um animalzinho) tenha morrido. Levá-las ao velório está fora de cogitação. Confunde-se não saber com não sofrer

Ora, não saber, não participar e não falar do fato é mais prejudicial para os pequenos. Quando não sabemos o que realmente aconteceu, imaginamos. E a imaginação é poderosa, tem asas que alcança vôos altos e segue o rumo de nossas apreensões e emoções. Nada mais saudável que saber a verdade, por mais dura que possa ser, pois nos permite lidar com a realidade como ela é, sem armadilhas. 

Não vale enganar

Diante da morte de alguém do convívio da criança, muitos usam de desculpas do tipo: vovô foi viajar. A criança não é tola, percebe que tem algo acontecendo. Sem contar que deve estar se sentindo abandonada e chateada com o avô que foi viajar e nem se despediu. Muitos pensam que a criança não é capaz de entender o que acontece ou de suportar emocionalmente a idéia da morte.

É sim. E vivenciando tais situações poderá compreender melhor o que ocorre. A criança também tem luto e, para que ele aconteça de maneira saudável, é necessário que ela não seja excluída do processo. Não podemos tirar dela o direito de sofrer por quem partiu.

Quando uma criança se encontra na situação de morte de alguém, deve-se dizer a verdade – que aquela pessoa morreu e não voltará mais (o primeiro passo para que o luto ocorra é aceitar o fato que o morto estará ausente definitivamente). As explicações devem seguir o curso de sua curiosidade. Algumas crianças farão muitas perguntas como, por exemplo, o que acontece depois da morte. O melhor é sermos francos e honestos. “Dizia, pois, Jesus aos judeus que nele creram: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sois meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (João 8.31-32). Se não soubermos o que responder, devemos dizer isto: ‘não sei’.

Geralmente acreditamos em alguma coisa e podemos passar nossas idéias. Sem supervalorizar o pós-morte. Alguns, para amenizar a tristeza, falam das maravilhas que vêm depois, tornando o morrer muito atraente. Corre-se o risco de a criança desejar estar onde a pessoa que morreu está.

Cada uma tem um jeito de reagir. Algumas choram e se desesperam. Outras ficam mais caladas. Algumas se culpam por terem feito algo para aquela pessoa. Ou até de terem, num momento de raiva, desejado algum mal. Se a incluirmos nesse momento de dor, ela poderá ter confiança em falar de seus sentimentos e temores. E os adultos vão poder ajudá-las a corrigir suas impressões.

Quanto aos funerais, algo que muitos acham absurdo uma criança participar, deve ficar a critério dela, que vai decidir se irá ou não. Não podemos impedi-la de participar do pesar familiar. Ela também estará sofrendo e deve ser respeitada em sua dor. Os funerais nos ajudam a lidar com a situação de morte. Lá, choramos, confortamos, somos confortados e constatamos que aquela pessoa realmente se foi.

Não há como evitar. A morte de alguém traz sempre dor e sofrimento. Sofrer faz parte da vida e a criança tem condições intelectuais para entender o que é a morte e também emocionais, para viver um luto sem grandes complicações. Tudo vai depender do quanto é esclarecida, e do conforto e da segurança que as pessoas que ama lhe darão. O Dia de Finados está aí. Caso alguma oportunidade surja, poderá ser um bom momento para abordar o tema morte com os pequenos.

(Ana Cássia Maturano é psicóloga e psicopedagoga)

Os acréscimos e observações em vermelho são de Cristina Lima (cristã, psicóloga, terapeuta sistêmica de família, terapeuta comunitária, gestora de ministérios da IBSerra).

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