Quero me aposentar!

        Há uma questão que, seguramente, atormenta jovens da classe média brasileira: por volta dos seus 17 anos, são pressionados a sair de casa e escolher uma carreira universitária com vistas à formação profissional daí decorrente. É como se o período escolar básico se organizasse de modo a formar os alicerces necessários à educação superior e essa, por sua vez, se modelasse para assegurar subsídios técnicos e teóricos para a profissionalização.

 

       A idéia é relativamente simples: até os 18 anos, se estuda para “ter base”; dos 18 aos 22 (23), se estuda para “ser alguma coisa”; depois se envereda no “mercado de trabalho”, até a aposentadoria.

 

      Do ponto de vista de um planejamento, a linearidade do processo parece, mais que necessária, o ideal. O problema é que a vida não obedece a linhas retas e direcionadas a um único ponto. A vida é teimosa e impertinente!

 

     Primeiro porque jovens em idade escolar não devem ser submetidos tão precocemente a uma escolha que – de alguma forma – imprimirá a direção de toda uma vida. Segundo, porque a Universidade não pode ser reduzida ao espaço para formação profissional. Terceiro, porque o trabalho é muito mais do que meio de subsistência. Por último, porque o sentido e o anseio da vida não são, simplesmente, a aposentadoria!

 

       Parece-me absurda a pressão irresponsável que família, escola e sociedade exercem sobre os adolescentes. Escolher uma carreira aos 17/18 anos de idade é, no mínimo, um contra-senso. Até porque as experiências na vida escolar pregressa são circunscritas quase que exclusivamente ao universo das carreiras tradicionais que – já não sem tempo – não dizem muito aos jovens, tampouco às demandas reais da sociedade. Esperar que a escolha seja acertada é contar demais com a sorte. Todavia, exatamente por causa da limitação que envolve uma escolha tão precoce, a escola deve olhar mais para fora de si em busca de alternativas verdadeiramente contemporâneas.

 

         lamentável que, no Brasil, a Universidade tenha raízes ainda tão superficiais. Convivemos com uma crise constante: do espaço privilegiadamente dedicado à pesquisa e a construção do saber novo e instigante se espera que haja formação profissional técnica e voltada a fazer girar a economia nacional. Se radicalizarmos as experiências de faculdades como “cursos preparatórios” para uma função profissional e, com isso, se perdermos a chance de preservar o espaço universitário como oportunidade de fomento à pesquisa, talvez tenhamos sérias dificuldades em encontrar, historicamente, espaço que o substitua. Formação profissional e pesquisa não são, entre si, excludentes, mas seguem caminhos próprios, que devem ser preservados, sob pena de, empobrecendo a pesquisa, estrangular, em breve espaço de tempo, a formação profissional qualificada.

 

       Por outro lado, é curioso que o trabalho profissional em si seja tão penoso para muitas pessoas. É raro encontrar quem seja, realmente, feliz na sua ocupação profissional; alguém que consiga compartilhar a alegria de fazer o que ama e, dessa atividade cheia de realização pessoal, conseguir subsidiar com dignidade os proventos indispensáveis à vida. Parece que a escolha precoce induz, quase que necessariamente, a erros graves no início da jornada; um curso superior mal escolhido concorrerá numa carreira profissional infeliz; e, por fim, como tal carreira foi forjada num curso meramente “profissionalizante”, a  chance de repensá-lo será praticamente nula; daí, só restará, infelizmente, esperar com ansiedade o tempo para a aposentadoria! A beleza do trabalho humano e todas as suas implicações na própria dignidade do ser humano ficam, por causa de tudo isso, ofuscadas. O trabalho deixa de ser componente intrínseco à vida e assume papel de ocupação passageira.

 

      Ao fim de tudo, estará a aposentadoria. O problema é que, quando ela chegar, trará consigo um mar de frustrações e decepções. No fim, o balanço da vida será triste. Se aposentar é se recolher no aposento; e se aposento é onde temos a chance de pousar e descansar; aposentar é, em algum sentido, voltar para casa, estar em casa. Assim, ao fim, não estará a verdadeira aposentadoria, antes uma espécie de prisão dentro de si mesmo. Estar em casa é ter a liberdade de encontrar-se consigo mesmo e, desse movimento para dentro, jorrar uma extrema sede de diálogo com quem nos cerca. Algo que não ocorre depois de uma vida inteira, mas que deve ser descoberto a cada dia.

 

        Por isso, parece-me que a tarefa mais urgente da escola não é ajudar a escolher a profissão certa, mas contribuir para que nossos jovens encontrem nos estudos seu aposento, e ousem fazer dele um trabalho, que, por força da transformação dele decorrente, imprima rumos próprios à experiência de cada indivíduo. Nesses termos, estudo e trabalho são correlatos, interdependentes.

 

       É por força dessas convicções que quero, sim, me aposentar. Quero, hoje, ter a certeza de que amo o que faço, porque o produto do meu trabalho é, antes de tudo, algo que enche de brilho o meu olhar e ajuda-me a encontrar o sentido da minha existência. Ainda que distante, quero conseguir me sentir em casa todos os dias.

 

Por: Ricardo Lengruber – ricardo@lengruber.com
O autor é pastor protestante, professor de Filosofia e Teologia.
www.lengruber.blogger.com.br

 

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